
O mês de janeiro, marcado nacionalmente pela campanha Janeiro Branco, convida à reflexão sobre a importância da saúde mental como parte fundamental do bem-estar individual e coletivo. No campo da educação, esse debate é ainda mais urgente: as escolas são espaços centrais de desenvolvimento emocional, social e cognitivo de crianças e adolescentes — e também locais onde se manifestam, muitas vezes, os impactos do sofrimento psíquico, das desigualdades sociais e das múltiplas formas de violência.
“Promover saúde mental nas escolas é uma ação preventiva fundamental, que impacta diretamente o clima escolar, a aprendizagem e a proteção de crianças e adolescentes. As evidências mostram que políticas educacionais precisam incorporar esse tema de forma estruturante, articulando educação, saúde e assistência social”, afirma Olivia Silveira, diretora executiva do D³e.
Violência extrema nas escolas e a urgência da prevenção
O debate sobre saúde mental nas escolas ganha ainda mais relevância diante dos dados sistematizados pelo D³e no relatório Ataques de violência extrema em escolas no Brasil: causas e caminhos (Atualização), que analisa a ocorrência desses episódios ao longo dos últimos anos. O estudo, lançado pelo D³e com apoio da B3 Social e da Fundação José Luiz Setúbal | Infinis – Instituto Futuro é Infância Saudável, complementa o estudo publicado em 2023, incorporando os casos registrados até dezembro de 2024 e detalhando os avanços e desafios nas ações de prevenção e enfrentamento. evidencia o crescimento e a maior visibilidade desse tipo de violência, além de padrões relacionados ao perfil dos ataques, aos contextos escolares e às vulnerabilidades sociais associadas.
As análises apontam que episódios de violência extrema não surgem de forma isolada, mas estão frequentemente conectados a trajetórias marcadas por sofrimento psíquico, exclusão, conflitos interpessoais, exposição à violência e fragilidade das redes de apoio. Esses achados reforçam que estratégias de resposta emergencial precisam ser combinadas com políticas estruturais de prevenção — nas quais a promoção da saúde mental ocupa papel central.
O que as pesquisas mostram sobre saúde mental no contexto escolar
A Síntese de Evidências Promoção da saúde mental no contexto escolar, realizada pelo D³e em parceria com a B3 Social e a Fundação José Luiz Setúbal | Infinis – Instituto Futuro é Infância Saudável, com autoria de Vládia Jucá, professora do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Ceará (UFC), reúne estudos nacionais e internacionais que demonstram o papel estratégico das escolas na prevenção de transtornos mentais, na promoção do bem-estar e na redução de comportamentos violentos.
Entre os principais achados, destacam-se:
- Programas de promoção de habilidades socioemocionais contribuem para a melhoria do clima escolar, das relações interpessoais e do desempenho acadêmico;
- Ações universais, voltadas a todos os estudantes, são mais eficazes quando combinadas com estratégias direcionadas a grupos em maior vulnerabilidade;
- A formação continuada de professores e equipes escolares é fundamental para o reconhecimento precoce de sinais de sofrimento psíquico;
- Ambientes escolares acolhedores, seguros e participativos reduzem riscos associados à violência e à evasão escolar.
As evidências indicam que a saúde mental não deve ser tratada como tema periférico, mas como componente estruturante das políticas educacionais.
A importância da articulação com a Rede de Proteção
Outro eixo central desse debate é a atuação integrada entre educação, saúde, assistência social, conselho tutelar e o sistema de garantia de direitos. O Guia para a articulação entre as escolas e a Rede de Proteção à Criança e ao Adolescente, elaborado pelo D³e em parceria com a B3 Social, oferece orientações práticas para apoiar gestores e profissionais da educação na identificação de situações de risco, no encaminhamento adequado dos casos e no trabalho colaborativo entre setores. O documento é de autoria de Vládia Jucá (UFC) e Laís Flores Santos Lopes Costa (UFBA).
O material destaca que:
- A escola é, muitas vezes, o primeiro espaço institucional a perceber sinais de violência, negligência ou sofrimento emocional;
- Protocolos claros de comunicação e fluxos de atendimento fortalecem a proteção de crianças e adolescentes;
- A construção de vínculos entre escola e serviços públicos locais aumenta a eficácia das respostas;
- A prevenção exige ações contínuas, e não apenas respostas a situações extremas.
Saúde mental como política pública educacional
Promover saúde mental nas escolas não se limita à oferta de atendimento psicológico, mas envolve:
- práticas pedagógicas que favoreçam o pertencimento e o protagonismo estudantil;
- formação de educadores para lidar com aspectos socioemocionais;
- articulação intersetorial permanente;
- uso de dados e pesquisas para orientar decisões.
Neste Janeiro Branco — e ao longo de todo o ano — o D³e reafirma seu compromisso com a produção de conhecimento científico, com o fortalecimento de políticas públicas e com a construção de ambientes escolares mais seguros, acolhedores e promotores do desenvolvimento integral. Investir em saúde mental nas escolas é investir em aprendizagem, em equidade e em uma sociedade menos violenta.