
O Senado Federal aprovou neste ano o novo Plano Nacional de Educação (PNE). No artigo O novo PNE dependerá da garantia de condições efetivas para sua execução, Olivia Silveira (diretora executiva do D³e) e Luiz Carlos Souza (professor da Unirio) analisam essa nova etapa da política educacional brasileira. Os autores destacam que o sucesso do novo PNE não dependerá apenas da qualidade de sua formulação, mas da capacidade do Estado em garantir condições efetivas para a sua implementação.
O documento recém-aprovado apresenta mudanças significativas na organização do planejamento educacional. O plano estrutura-se agora em diretrizes, 19 objetivos, 73 metas e 372 estratégias. Essa configuração busca tornar o PNE um instrumento de gestão pública mais legível, articulado e próximo das exigências concretas de monitoramento e execução. O texto também incorpora mecanismos de governança mais densos e aproxima o planejamento de médio e longo prazo da rotina administrativa do Estado.
Lições do ciclo anterior
A sofisticação do novo desenho institucional traz um alerta central baseado no balanço do PNE 2014-2024: o ciclo anterior foi concluído sem alcançar parte importante de suas metas estruturantes, evidenciando que a existência de diretrizes e metas é uma condição insuficiente sem a devida capacidade institucional, política e financeira.
O artigo aponta déficits concretos do decênio passado:
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Na educação infantil, o atendimento em creches para crianças de 0 a 3 anos chegou a 37,3% em 2022, não alcançando a meta de 50%.
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No ensino fundamental, a taxa de conclusão por pessoas de 16 anos foi de 84,3% em 2023, abaixo da meta estipulada de 95%.
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A tentativa de redução do analfabetismo funcional falhou, permanecendo em 12,3% em 2023, índice superior à meta de 8,9%.
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O investimento público em educação pública ficou estagnado em torno de 5% do PIB entre 2015 e 2022, um patamar muito distante das metas de 7% e 10%.
Uma mudança importante no novo plano é o tratamento da equidade, que deixa de ser um princípio genérico para ser tratada de forma transversal na formulação das metas. O monitoramento do plano passado expôs desigualdades profundas: a conclusão do ensino fundamental aos 16 anos em 2023 foi de 90,4% no Sudeste, por exemplo, contrastando com 73,7% no Norte. Para que haja mudança real, a equidade precisa ser adotada como critério prático de alocação de recursos, prioridade política e apoio técnico.
Os autores advertem que o Brasil precisa tratar o PNE efetivamente como um plano de Estado, e não de governo. A viabilidade das novas metas exigirá apoio técnico permanente e financiamento adequado aos entes subnacionais, além de uma coordenação interfederativa concreta. Sem essas condições estruturais, a densidade técnica do documento corre o risco de se transformar em burocratização, repetindo o padrão de alta ambição normativa e baixa realização concreta que marcou o ciclo anterior.