Escolas como agentes de mudança: engajamento comunitário fortalece a resiliência climática nos territórios

O encerramento da COP 30 reacendeu debates fundamentais sobre a urgência de ações concretas de adaptação e mitigação climática, especialmente em países mais vulneráveis aos efeitos do aquecimento global. Se, no plano internacional, a conferência reforçou compromissos e disputas em torno de financiamento, transição energética e justiça climática, no plano local seus desdobramentos evidenciam a necessidade de fortalecer instituições capazes de articular conhecimento, participação e práticas coletivas. Nesse sentido, as escolas emergem como atores centrais para traduzir agendas globais em respostas territorializadas e socialmente enraizadas.

Os impactos das mudanças climáticas já fazem parte da rotina de milhões de brasileiras e brasileiros. Ondas de calor, chuvas intensas, enchentes, estiagens prolongadas e outros eventos extremos vêm afetando diretamente as condições de vida, especialmente nos territórios mais vulneráveis. Nesse cenário, as escolas têm se destacado como espaços estratégicos para articular conhecimento, participação social e ação comunitária.

Essa perspectiva é reforçada pela Nota Técnica O impacto das mudanças climáticas na educação, publicada pelo D³e, em parceria com o Todos Pela Educação. A recomendação nº 3 do estudo destaca que o engajamento da comunidade escolar — estudantes, famílias, equipes gestoras, funcionários e entorno — é essencial para fortalecer estratégias locais de adaptação e mitigação climática. A literatura internacional e experiências brasileiras, como o Selo Escola Sustentável e iniciativas inspiradas nas “Green Schools” da UNESCO, indicam que instituições educacionais podem se tornar pólos articuladores de respostas comunitárias a desafios socioambientais.

Da informação à ação: fundamentos para o engajamento comunitário

Para a professora Ariane Di Tullio, bióloga e educadora ambiental da rede municipal de São Carlos (SP), o engajamento comunitário em torno da agenda climática depende da articulação consistente entre duas dimensões interdependentes: a disponibilização de informação qualificada e a promoção de ações coletivas estruturadas. Segundo a docente, a abordagem deve priorizar a educação crítica e a ação prática. “É preciso superar a desinformação e promover uma compreensão ampla dos efeitos já presentes das mudanças climáticas. Depois, é fundamental mostrar que ações isoladas não bastam”, afirma.

Ariane destaca que o fortalecimento da capacidade crítica da comunidade escolar é condição necessária para que a escola transcenda iniciativas pontuais e avance na construção de debates estruturantes — incluindo o acompanhamento e a incidência sobre políticas públicas relacionadas à mitigação e à adaptação climática. Com esse alicerce, ações locais tornam-se mais densas, relevantes e integradas às necessidades reais do território. Entre as iniciativas que vêm sendo desenvolvidas em diferentes redes de ensino, Ariane cita a adequação da infraestrutura escolar para enfrentar eventos climáticos extremos; a criação e manutenção de áreas verdes, jardins de chuva e outras soluções baseadas na natureza; a mobilização comunitária para a coleta seletiva e o manejo ambientalmente adequado de resíduos; e a participação de estudantes, famílias, docentes e equipes gestoras em fóruns, conselhos e audiências públicas. “Essas ações adquirem maior significado quando articuladas às demandas específicas do território e quando promovem participação efetiva, e não apenas adesão circunstancial”, enfatiza.

Atividades práticas — como hortas escolares, compostagem, projetos de sensibilização e campanhas educativas — desempenham papel central na constituição de vínculos e na ampliação do sentimento de pertencimento ao espaço escolar e ao território de referência. “A experiência prática e a colaboração criam vínculos com o espaço coletivo da escola e da comunidade e a divulgação dos resultados e o envolvimento nos espaços de participação ajudam a construir uma identidade coletiva e um sentimento de protagonismo”. De acordo com ela, esses elementos são fundamentais para consolidar uma comunidade escolar que se reconhece como agente capaz de influenciar decisões, fortalecer capacidades adaptativas e contribuir de maneira substantiva para a resiliência climática local.

Soluções locais para desafios globais

A pesquisadora Sofia Lerche Vieira, autora de Nota Técnica do D³e, enfatiza a relevância de incorporar ao debate climático as práticas que emergem dos territórios, sobretudo em um contexto em que eventos internacionais, como a COP 30, tendem a monopolizar a atenção pública e institucional. Para a autora, experiências desenvolvidas por cidadãos, comunidades tradicionais e escolas evidenciam formas concretas de enfrentamento da crise climática que permanecem sub-representadas nas agendas globais.
Segundo a pesquisadora, enquanto eventos de grande visibilidade, como a COP 30, concentram atenções, é fundamental olhar para o que já está sendo feito nas comunidades e nas escolas. “Há uma potência transformadora em iniciativas locais — do plantio de milhares de árvores a pequenas florestas criadas em pátios escolares — que nos mostra caminhos concretos para desafios que parecem intransponíveis”, destaca.

Nesse sentido, Sofia sustenta que a educação ambiental crítica constitui um eixo estratégico para que as instituições escolares incorporem, analisem e sistematizem conhecimentos produzidos nos territórios. “Há lições importantes no trabalho de cidadãos, escolas ribeirinhas e comunidades tradicionais que passam despercebidas no debate internacional. A escola pode ser um espaço para cultivar essa lógica de respeito e preservação da natureza — e para iluminar experiências que o mundo precisa aprender.”

Limites e responsabilidades: a escola não pode atuar isoladamente

Embora desempenhem papel relevante nesse processo, as escolas enfrentam limitações não apenas estruturais, mas que estão associadas às limitações do próprio educativo, se visto como uma prática social. O professor Luiz Marcelo de Carvalho – pesquisador em educação ambiental e docente voluntário junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação (linha de pesquisa em Educação Ambiental), do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp), e do Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências (linha de pesquisa Temas Socioambientais), da Universidade Federal de Itajubá, alerta para o risco de atribuirmos a essas instituições uma função social, diante de desafios que as sociedades contemporâneas enfrentam, que extrapolam sua esfera de atuação. “A escola, sempre tão desvalorizada pelas políticas educacionais, mais uma vez é chamada para desenvolver ações que acabam por desviá-la de seu papel de formação dos sujeitos ético-políticos e que se voltam para ações pragmáticas, na busca de soluções imediatas que pouco impacto têm no problema em questão”, defende Carvalho.

Para ele, o papel central da escola é contribuir para o desenvolvimento de uma consciência crítica sobre as raízes socioeconômicas da crise ambiental. Segundo o pesquisador. “O que a escola pode fazer é desenvolver práticas educativas que se voltam para conhecimentos, valores éticos e estéticos e para a formação política de sujeitos que compreendam a insustentabilidade de um sistema econômico hegemônico, baseado na exploração da natureza e dos seres humanos, vistos como recursos (naturais e humanos) para a produção de lucros”, enfatiza.

O pesquisador destaca ainda que a escola cumpre sua função social, ao desenvolver processos de formação de estudantes para a participação política e para o engajamento em processos decisórios que envolvam mudanças estruturais  e que passam, necessariamente, por mudanças no modelo de produção social. “Modelos hegemônicos que têm como base a exploração da natureza e dos seres humanos; mudanças que possam alterar radicalmente, inclusive, a matriz energética e a lógica econômica que acaba por definir as atuais políticas ambientais.”

Caminhos para fortalecer a resiliência climática em perspectiva territorial

A análise da Nota Técnica evidencia que a construção de respostas consistentes à crise climática depende da articulação entre escola, comunidade e políticas públicas estruturantes. Nesse marco, destacam-se diretrizes prioritárias para orientar ações intersetoriais:

  • Consolidar a educação ambiental crítica como componente estruturante do currículo escolar;
  • Promover processos decisórios que assegurem participação qualificada da comunidade;
  • Desenvolver projetos territoriais de adaptação climática ancorados em diagnósticos e demandas locais;
  • Fortalecer espaços institucionalizados de deliberação, como conselhos escolares e ambientais;
  • Ampliar parcerias com universidades, coletivos socioambientais e organizações da sociedade civil;
  • Garantir políticas públicas e investimentos que possibilitem às escolas desempenhar suas atribuições sem transferência indevida de responsabilidades.

Tais diretrizes reforçam a necessidade de compreender a escola como parte de um ecossistema territorial complexo, no qual práticas educativas, participação social e proteção ambiental se articulam de maneira indissociável. O fortalecimento da resiliência climática em âmbito local demanda o engajamento das comunidades e a capacidade das instituições escolares de mediar processos de formação crítica, participação e ação coletiva. Contudo, essa agenda requer reconhecimento institucional, financiamento adequado e políticas públicas fundamentadas em evidências, de modo a evitar a atribuição à escola de funções que extrapolam sua esfera de atuação e que deveriam ser de responsabilidade do Estado e de outros atores sociais.

As evidências apresentadas indicam que algumas das iniciativas mais robustas e inovadoras para o enfrentamento da crise climática têm origem nos territórios, articuladas por educadores, estudantes, famílias e comunidades tradicionais. A institucionalização, disseminação e ampliação dessas práticas constituem passos essenciais para o desenvolvimento de políticas públicas ambientalmente sustentáveis, socialmente justas e democraticamente orientadas.

Acesse a Nota Técnica O Impactos das Mudanças Climáticas na Educação

 

Acesse os estudos usados como referência para a produção da Nota Técnica:

Aprendizado em risco (UNESCO)

O impacto das mudanças climáticas na educação (Banco Mundial) 

Padrão de Qualidade Escola Verde (UNESCO)