
Os recém-divulgados dados do Censo Escolar 2025 trazem um retrato de expansão acelerada em duas das políticas educacionais mais debatidas do país: a educação em tempo integral e a Educação Profissional e Tecnológica (EPT).
O levantamento aponta para o cumprimento de metas históricas e um aumento expressivo de matrículas na rede pública. No entanto, a análise de políticas públicas exige ir além do “quanto” e investigar o “como”.
Cruzando os novos números do Censo com as evidências de nossas recentes Notas Técnicas e Relatórios, fica claro que a expansão da rede impõe aos gestores um desafio monumental: garantir que o acesso ampliado se converta em aprendizagem real, com infraestrutura adequada, planejamento territorial e financiamento sustentável.
Abaixo, analisamos alguns destaques do Censo 2025 sob a lente das evidências apontadas nas publicações do D³e.
Educação em Tempo Integral: mais tempo exige mais intencionalidade pedagógica
O Brasil registrou um salto de 923 mil novas matrículas em tempo integral na rede pública em 2025, impulsionado pelo programa Escola em Tempo Integral. Com isso, o país alcança parcialmente a Meta 6 do Plano Nacional de Educação (PNE), que estipulava o atendimento de, pelo menos, 25% dos alunos da educação básica nesta modalidade.
Celebrar a expansão é fundamental, mas como demonstram o relatório Escola de Tempo Integral e a nota técnica Educação integral em tempo integral: caminhos e desafios, o ritmo de aumento de matrículas não pode ser descolado da qualidade da oferta.
As evidências mostram que a simples ampliação da jornada escolar, por si só, não altera o desempenho dos estudantes ou reduz desigualdades. A proposta da educação integral corre o risco de se tornar apenas um “depósito de tempo” se não vier acompanhada de:
- Reformulação Curricular: O tempo extra não deve ser um mero prolongamento de aulas expositivas, mas um espaço para um currículo efetivamente integrado, que englobe o desenvolvimento socioemocional, cultural e científico dos estudantes.
- Condições de Oferta: A expansão exige insumos adequados, o que inclui readequação do espaço físico das escolas, refeitórios estruturados e materiais didáticos diversificados.
- Sustentabilidade Financeira: O financiamento de longo prazo é um dos maiores gargalos. Enquanto o repasse federal atua como um forte indutor inicial, o custeio contínuo dessa expansão recairá sobre estados e municípios, exigindo um planejamento orçamentário rigoroso para não precarizar as redes no médio prazo.
Educação Profissional e Tecnológica (EPT): A urgência do planejamento territorial
A EPT foi a modalidade com maior crescimento percentual em 2025. O Censo aponta um aumento de 23,7% nas matrículas (mais de 611 mil novos alunos). Em quatro anos, o percentual de jovens do Ensino Médio que cursam o ensino técnico saltou de 11,9% (2021) para 20,1% (2025) – um avanço tracionado principalmente pela ampliação da oferta do chamado quinto itinerário formativo.
O crescimento acelerado da EPT é uma excelente notícia para a juventude e para o desenvolvimento econômico do país. Como destacado em nossas Notas Técnicas recentes, PROPAG e Novo PNE: caminhos para ampliar a EPT e Educação profissional no Brasil contemporâneo, jovens com formação técnica têm maiores taxas de empregabilidade e remuneração superior àqueles apenas com o ensino médio regular.
No entanto, com o Novo PNE prevendo a meta ambiciosa de matricular 50% dos alunos do ensino médio na EPT na próxima década, a expansão desordenada é um risco grave.
Para que o ensino técnico não se torne uma promessa vazia de empregabilidade, as redes precisam observar alertas críticos:
- Planejamento baseado em evidências territoriais: A abertura de vagas e a escolha dos cursos não podem ser aleatórias ou pautadas apenas na infraestrutura que a escola já possui. É imperativo cruzar a oferta educacional com os dados de demanda econômica local, evitando a formação de jovens para setores sem absorção na economia regional.
- Mecanismos de Financiamento (PROPAG): Para custear laboratórios modernos e contratar profissionais especializados, estados podem e devem utilizar de forma mais estratégica fundos e programas de repasse, superando os desafios burocráticos de implementação.
Evidências para sustentar o salto
Os dados do Censo Escolar 2025 mostram que o Brasil sabe como induzir a ampliação de acesso. O desafio que se coloca aos gestores agora – na iminência da aprovação de um novo Plano Nacional de Educação – é de natureza qualitativa.
Para que as novas vagas em tempo integral e na educação profissional representem uma mudança real na trajetória de vida dos estudantes brasileiros, o desenho e a implementação dessas políticas precisam ser amparados em evidências, avaliações constantes e foco absoluto na equidade.