Organizações civis participam de evento sobre redes de apoio para proteção social de crianças e adolescentes

Segundo a Organização Mundial da Saúde, saúde mental é a capacidade de viver com qualidade, lidar com os desafios da vida, aprender, trabalhar e contribuir com a comunidade. Nesse cenário, a escola ocupa um papel fundamental como espaço de escuta, acolhimento e construção de vínculos. 

Para aprofundar esse debate, a B3 Social, o D³e e a Fundação José Luiz Setúbal realizaram, no dia 27 de junho, o encontro online “Tecendo Proteções: atuação em rede pela promoção da saúde mental de crianças e adolescentes”. O evento, mediado por Talisia Wayhs, da B3 Social, reuniu mais de 100 organizações sociais de todas as regiões do país e abordou caminhos para integrar a promoção da saúde mental às estratégias de proteção social, fortalecendo a escola e outros equipamentos públicos como espaços de cuidado, acolhimento e garantia de direitos.

A abertura da sessão contou com a fala de Amanda Gregório dos Santos, da Fundação José Luiz Setúbal, que apresentou o Infines e sua atuação na promoção da saúde infantil no Brasil, compreendendo a escola como um espaço primordial para o desenvolvimento saudável de crianças e adolescentes. Amanda chamou atenção para os estudos produzidos em conjunto com o D³e sob essa temática, entre eles a síntese de evidências Promoção de saúde mental no contexto escolar

Na sequência, Olivia Silveira, diretora executiva da D³e, destacou a produção do Guia para articulação entre escolas e a Rede de Proteção a Crianças e Adolescentes como uma articulação concreta entre o conhecimento acadêmico e as políticas públicas, buscando influenciar a implementação e execução dessas políticas no território escolar.

A convidada do encontro foi a professora e pesquisadora Vládia Jucá, da Universidade Federal do Ceará e psicóloga formada pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), autora dos estudos citados anteriormente. Um dos primeiros destaques que ela traz é um estudo de 2014 indicando que 11,63% das pessoas entre 5 e 24 anos apresentavam transtornos mentais, algo que se complexificou após a pandemia.

A pesquisadora abordou a questão da facilidade de acesso a medicações psiquiátricas e a banalização de seu uso. Ela alertou sobre os riscos de silenciar a questão subjacente ao sofrimento, ressaltando que a medicação deve ser utilizada com muito cuidado e nunca isoladamente. “’O problema é porque João tem TDAH. Ponto final.’ Não deveria ser ponto final, deveria ser uma interrogação: ‘O que está acontecendo com o João para que ele esteja tão excitado, tão hiperativo, com tanta dificuldade de se concentrar?’”, questionou Vládia Jucá, enfatizando a importância de ir além do diagnóstico e buscar compreender o que realmente se passa com a criança ou adolescente.

Pesquisadora fala sobre os riscos da medicalização.

“Quando a gente fala em saúde, é importante lembrar que saúde não é só a ausência de doença. Prevenir doenças e promover saúde são práticas diferentes. Promover saúde significa garantir direitos, criar condições dignas para que as pessoas possam viver bem. E isso só é possível se construirmos redes de cuidado que tenham a pessoa no centro, e que sejam pensadas a partir das suas reais necessidades”, destacou a professora durante o encontro.

A construção de redes formais e informais é essencial, mas a rede “não existe simplesmente porque a gente tem os equipamentos públicos”. Vládia Jucá enfatizou que fazer rede é “dialogar e construir conjuntamente uma estratégia de cuidado compartilhado”. A rede deve ser centrada na criança e no adolescente, partindo de suas necessidades. Os desafios incluem a sobrecarga das equipes, a falta de condições concretas para a interação intersetorial e a dificuldade em lidar com linguagens e setores diferentes. No entanto, ela ressaltou que, apesar de dar trabalho, a rede “reduz muito tanto os custos públicos como a quantidade de trabalho que a gente teria se a gente não fizesse as redes”.

Assim, o evento reforçou a mensagem de que a promoção da saúde mental é um trabalho coletivo, que exige o compromisso de diversos setores e o reconhecimento da dignidade, do vínculo e da proteção como pilares fundamentais para o bem-estar de crianças e adolescentes.